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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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Ser pai e filho de fim-de-semana

Nos 11 meses que durou o nosso namoro fui-me apercebendo das rotinas que o Paulo tinha com o Melga e posso dizer que o Paulo era o típico ‘pai de fim-de-semana’.

No fim-de-semana do Melga, a vida ficava em ‘stand by’, tudo era feito em função do Melga: a casa era arrumada de forma diferente para o menino poder brincar à vontade, a televisão só passava bonecos de manhã à noite, as saídas eram programadas em função dos interesses de uma criança de 5 anos, havia sempre prendas (uma miniatura de um animal, um carrinho Hot Wheels).

Naquela altura, há 15 anos atrás, na minha família mais chegada (as primas todas da minha idade) ainda não havia casamentos e divórcios, não havia crianças pequenas. Por isso achava tudo aquilo muito estranho. Não podia ser! Como é que uma criança de 5/6 anos podia mandar e desmandar daquela forma numa casa?

Como não tinha qualquer experiência, dava muitos ouvidos aos outros e os outros, quase sempre, eram educadores exemplares e tinham filhos exemplares: o meu filho não faz isso! Era o que faltava! Em minha casa isso não acontece!

No começo quis mudar tudo ‘à força’, mas cedo percebi que se queria mudar alguma coisa, tinha que ter paciência. Com o tempo apercebi-me que nem os outros, nem os seus filhos, não eram assim tão perfeitos como apregoavam e, além disso, nenhum dos outros estava na mesma situação do Paulo. A relação pai/filho que o Paulo tinha com o Melga dificilmente podia ser de outra maneira.

Excluindo aquelas situações em que o Melga fazia asneira grande, como é que o Paulo repreendia o Melga quando sabia que o tinha consigo menos de 48 horas e que só o volta a ter em casa daí por duas semanas (sim, porque a meio da semana o Melga só vinha tomar banho, jantar e dormir)?

Acho que esta é uma questão comum a muitos outros pais por esse país fora.

Já depois de casados lembro-me, nos domingos à noite (depois do jantar e antes de deitar), de ver o Melga no quarto a tentar fazer três coisas ao mesmo tempo: a televisão ligada nos bonecos, o Gameboy ligado em cima da cama, os brinquedos espalhados no chão. Também ele sabia que o tempo estava a acabar… só daí a duas semanas é que voltava a ter aquele quarto à sua disposição. Para uma criança de 8, 10, 12 anos, duas semanas é uma eternidade!

No caso do Melga isto tudo era exacerbado exponencialmente, porque a mãe tinha uma filosofia de vida diferente da nossa. Em casa da mãe, o Melga não podia ver televisão, não podia jogar em consolas ou computadores. Os companheiros de brincadeira eram jogos de tabuleiro, livros e pouco mais.

Quando se vive com este nível de intransigência de um lado, conseguem imaginar o que significa para um pai ter que dizer a um filho, com 10 /12 anos, que vem passar o fim-de-semana, sôfrego por ver televisão e jogar playstation: ‘Não podes ver televisão, na próxima semana tens 4 testes e tens que estudar!’

E quando era preciso gerir isto tudo com o aniversário do avô ou da avó ou da prima…

O Melga viveu toda a vida nesta espécie de bipolaridade. Como vivia a maior parte do mês com ‘8’, nos poucos dias que estava connosco queria ‘80’. O que sobrava para o meu querido Paulo era choro, muita negociação, muita luta para o manter sentado na cadeira a prestar atenção ao estudo, sempre a perguntar pelas horas.

Rita, a madrasta

Isto de ser madrasta tem muito que se lhe diga. Cada caso é um caso, com muitas variáveis em jogo: a madrasta, a criança, os pais da criança, os avós da criança. Tenho a sorte de ter um enteado que sempre foi um amor de menino. Meiguinho. Desde que fosse bem tratado, para ele estava tudo bem (acho que é isto que qualquer criança de 6 anos quer).

Lembro-me de a minha mãe me dizer ‘Oh Rita tens que ter muita atenção. Não estás a casar só com um homem, também estás a casar com o filho dele’ e a minha avó que me disse ‘nunca te esqueças, o menino não tem culpa de nada, ele não pediu para nascer.’

Desde muito cedo o Paulo deixou-nos entregues um ao outro. A intenção era clara. Nós dois tínhamos que nos entender, criar as nossas regras. Ele só intervinha quando era mesmo necessário. É verdade que nem sempre conseguia ser imparcial (era o menino dele), mas houve muitas situações em que compreendeu a minha posição e contrariou o Melga.

Desde o início deixámos muito claro para o Melga que, em nossa casa, o Paulo era o Pai, o Melga era o Filho e eu era a ‘Mãe’. Houve algumas rotinas que quis mudar e tive que batalhar para as conseguir mudar. Nem sempre foi fácil, ainda ouvi algumas vezes a famosa frase ‘se ele fosse teu filho, não fazias isso’. Mas tenho a consciência tranquila. No meu relacionamento com o Melga tive sempre o cuidado de pensar ‘se ele fosse mesmo meu filho, como é que eu fazia’.

Acho que tive bons resultados. Quando havia TPC’s era para mim que o Melga se virava. Estava fora de questão ser o pai a cortar-lhe as unhas. Quando chegámos àquela fase em que já tomava banho sozinho, mas ainda era preciso ajuda para se limpar, era por mim que chamava a cantarolar ‘Ritita, a minha toalhita’.

Lembro-me de um dia estar a esfregar-lhe a cabeça durante o banho e termos esta conversa:

Melga: Sabes Rita, hoje a professora disse que os pais devem ajudar os filhos a fazer os trabalhos de casa.

Eu: Tem toda a razão. Assim os pais ficam a saber que matérias é que os filhos estão a estudar.

Melga: Tu também me ajudas a fazer os trabalhos de casa.

Eu: Pois! Quando estás cá em casa, ajudo.

Melga: Mas tu não és a minha mãe.

Eu: Pois não.

Ficámos um bocadinho em silêncio. Percebi que estava num dilema e não sabia como dar a volta ao assunto.

De repente levanta cabeça, olha para mim e disse: És quase minha mãe.

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