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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

Quatro anos

O que restará de ti

É tudo aquilo que deste

E não o que guardaste

Nos cofres enferrujados

 

O que restará de ti

E de teu jardim secreto

É uma flor esquecida

Jamais fenecida

E tudo que deste

Nos outros, florescerá

Pois aquele que perde a vida

Um dia a encontrará

 

O que restará de ti

É tudo que ofereceste

De braços abertos

Numa manhã ensolarada

E tudo que perdeste

Ao longo da jornada

E tudo que sofreste

Nos outros reviverá

Pois aquele que perde a vida

Um dia a encontrará

 

O que restará de ti

Uma lágrima caída

Um sorriso brotado

Nos olhos do coração

 

É verdade,

O que restará de ti

É o que semeaste, dividiste

Com os que buscam a felicidade

E tudo que semeaste

Nos outros germinará

Pois, aquele que perde a vida

Um dia a encontrará

(Obrigada Miguel Falabella, por nos teres dado a conhecer este texto)

A tua cabeça é o teu guia

Desde muito pequenos nos ensinam ‘não sejas uma maria vai com todos’ ou ‘a faz bem a tua cama, porque nela te deitarás’, desde muito pequenos temos família e amigos, que nos incentivam a pensar com a nossa cabeça e nos ajudam a fazer as melhores escolhas.

Faz parte do processo de crescimento, sempre que a vida nos coloca numa encruzilhada, sempre que a vida nos dá um pontapé, quando não se consegue ver uma saída, quando não se consegue encontrar um caminho, recorremos aos amigos e à família, aos seus conselhos, à sua experiência… às vezes basta uma pequena conversa para tudo clarear…

Quando o meu Paulo morreu fiquei numa grande encruzilhada. Sabia que precisava encontrar um caminho novo. Tive pessoas à minha volta que tentaram ajudar-me… o melhor que sabiam e podiam. Nunca me senti sozinha, pelo menos fisicamente. Só que a minha solidão, desorientação, vinha de dentro e foi tão violenta que me impossibilitou de ouvir quem estava à minha volta. Sentia-me completamente às escuras… Como é que se encontra um caminho, quando não se 'vê um palmo à frente do nariz’

Foi por isso que me rendi aos comprimidos. Não os queria tomar. Achava que era um sinal de fraqueza, tomar antidepressivos. Foi a minha médica que me explicou:

‘a cabeça é mais um órgão, também fica doente, como o coração ou o estômago, mas ao contrário dos outros órgãos que se curam com comprimidos, a cabeça não se cura com comprimidos… os comprimidos só ajudam… a cura da cabeça é a pessoa que a faz'.

Durante os dois anos que se seguiram, os benditos comprimidos lá foram levantando o nevoeiro que me rodeava e lá fui encontrando o meu novo caminho. Eu sempre soube que este caminho existia, nunca duvidei que tinha à minha frente vários novos caminhos, eles estavam lá… eu só não os conseguia ver. A única coisa que eu sabia era que não queria ficar naquela encruzilhada escura. É para isto que servem os antidepressivos, ajudam-nos a VER, só isso… a VER, o resto é com a pessoa!

Não acho que tenha feito uma coisa extraordinária. Apenas lidei com aquilo que a vida me trouxe. Temos o direito de cair, mas depois temos o dever de levantar, sacudir o pó e ir em frente.

Isto tudo para vos falar de casos que conheço de pessoas que se recusam a sair das encruzilhadas da vida. Não entendo. Pessoas que se recusam a reagir, que se recusam a dar o passo em frente, que escolhem (é uma escolha!) permanecer num ciclo vicioso de vitimização, de choradinho, de lamuria constante. Não entendo.

Pessoas que têm vergonha de pedir ajuda. Pessoas para quem o nevoeiro já está tão espesso que se transformou numa parede e já não conseguem seque ouvir. Pessoas que pedem ajuda ao médico, mas só porque acham que os comprimidos vão resolver tudo…

Eu sei, não somos todos iguais. Não reagimos todos da mesma forma. Cada um tem as suas fraquezas e qualidades. Isto faz-me pensar no estado em que está a saúde mental no nosso país. Porque é que os médicos de família, perante quadros de depressão mais complexos, não encaminham os doentes para consultas de psicologia? Porque é que o SNS não tem psicólogos nos Centros de Saúde ou nos hospitais? Porque que caraças é considerado um luxo ir a um psicólogo?

Porque, eu acho, é só a minha opinião e vale o que vale, o que estas pessoas precisam é de alguém, treinado, que os ensine a VER.

Podem chamar-me louca, não faz mal...

Eu decidi ter estas páginas para me ajudar a lidar com o que me vai na alma, neste processo de fazer o meu luto. Por isso, tenham paciência, está bem???

Este mês tenho andado mais sensível. Volta e meia as lágrimas assaltam-me. Este sábado à noite, já na cama, chorei outra vez muito...

Abril de 2018: o mês em que atingi o patamar muito sonhado pelos dois (a história do montante em divida do crédito à habitação, que vos contei no início do mês) e este fim de semana fez 11 anos que mudámos para a nossa casa nova. Estas coisas acabam por mexer comigo, mais do que gostaria. Posso parecer muito bem-disposta e sorridente, mas cá por dentro anda tudo num alvoroço…

Talvez por andar assim, há dias aconteceu-me uma coisa que não consigo explicar… até tenho medo de parecer meio alucinada. Se calhar desse lado vão começar a comentar “olha esta… não tomes as gotas, não!!!” Não faz mal, podem comentar…Foi muito estranho porque... nas semanas após a morte do meu Paulo, à noite, quando me deitava, eu pedia secretamente que isto acontecesse, pedia um 'sonho vivido', sabem o que é? Aqueles sonhos em que conseguimos SENTIR na pele... nunca aconteceu, nem uma vez, nem sequer parecido...

...

Estava no autocarro, a caminho de casa. Não me lembro do que pensava, não sei em que parte do percurso ia, não sei porquê… só sei que fechei os olhos e senti o meu Paulo. Sabem aquela sensação de sentir uma pessoa perto, sentir o cheiro… senti que ele me abraçava e o gesto dele quando me afastava o cabelo da testa e me dizia ‘tá bem…’  foi só uma fração de segundo, mas juro que ouvi a voz do meu Paulo no meu ouvido… nitidamente.

As saudades que eu tenho de ouvir a voz dele.

Fui o resto do caminho a chorar e passei os últimos dias meio tolinha, porque quero voltar a ter a mesma sensação, voltar a ouvir, e não consigo... Eu sei, eu sei que tenho que dar a volta a isto, que não me posso deixar impressionar por estas coisas. Vai na volta, apenas passei pelas brasas e tive um sonho vivido em pleno autocarro da Carris, foi só isso...

Ontem comecei o processo de 'dar a volta'. Vocês já sabem… quando preciso de dar a volta por cima, faço aquilo que nós dois mais gostávamos de fazer… deito mãos à minha casa e mudo alguma coisa. Desta vez foram as ‘perdigaitas’ que estavam a decorar a mesa de sala de jantar.

Já lhes andava a rezar pela pele há uns tempos.

Este domingo, tomei o pequeno almoço na varanda (o S. Pedro lá permitiu!) e quando passei para a cozinha, olhei outra vez para a mesa … “há 11 anos que estás assim… de hoje não passas”… e não passou.

Agora está assim… até me voltar a cansar!

sala.jpg

Hoje terminei o processo de 'dar a volta'...em vez de continuar a matutar numa coisa que não faz sentido, deitei tudo cá para fora e escrevi estas linhas (e que bem que me fez!)

Era hoje, Paulo...

 

Lembram-se da verdadeira odisseia que foi o processo de compra da minha casa?

Pois bem, no dia em que finalmente fizemos a escritura, eu e o meu Paulo resolvemos assinalar a data com um jantar a dois, num restaurante perto de casa.

Quando o meu Paulo estava a fazer o pedido, para minha surpresa, oiço-o dizer: 'traga uma garrafa de espumante destas, por favor...'.

Arregalei os olhos  ao que ele comentou:

'Não fiques com essa cara... acho que depois desta novela merecemos festejar!'

Estávamos tão felizes, nesse dia.

Tinhamos tantos planos...

Depois as coisas ficaram um bocadinho feias. Foi o tempo em que as taxas de juros dispararam como foguetes. Em pouco mais de dois anos já estávamos a pagar mais 300€/mês, acima da prestação inicial. Foi duro! Durante todo o processo de compra estivemos sempre convencidos que não estavamos a dar um passo maior que a perna, mas aqueles tempos deixaram-nos com medo. Nunca corremos o risco de perder a casa, mas a coisa complicou-se... muito.

Com o tempo as coisas lá viraram a nosso favor. De um dia para o outro, diga-se... por razões que só mentes brilhantes entendem, como é costume dizer-se ‘é a economia, estúpido!’ As prestações foram sempre pagas a tempo e horas e, através do netbanco, íamos vendo o montante do capital em dívida a descer, migalhinha a migalhinha.

...

Um dia, a caminho de casa, disse-lhe:

- Quando o montante do capital em dívida ficar abaixo de ……€, fazemos outra vez um jantar a dois, com direito a garrafa de espumante e tudo.

Disse-o um pouco da boca para fora, como dizia tantas outras coisas, mas o meu Paulo nunca mais se esqueceu e não me deixou esquecer... de vez em quando perguntava-me ‘então morzinho, ainda falta muito?’ ao que eu respondia 'ai homem, não nos doa a cabeça... ainda falta... ainda falta'

Nestes três anos e meio em que o meu Paulo já não está comigo (pelo menos fisicamente), principalmente nestes últimos meses, sempre que vou ao netbanco, fazer um pagamento ou uma transferência, de forma involuntária dou comigo a olhar para aquele quadradinho do 'montante do capital em dívida', tenho estado a antecipar este dia...

...

Já não falta nada, Paulo…

O nosso jantar a dois, 'com direito a garrafa de espumante e tudo', era hoje.

(Sim, eu sei que podia abrir uma garrafa de espumante na mesma... mas nunca seria a mesma coisa... agora já não faz muito sentido...)

O que eu gostava de saber escrever assim...

“Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.“

 

“Como é que se esquece alguém que se ama” Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume”

 

Escrever assim é um dom.

O luto é isto mesmo, assim, tal e qual.

O luto é uma despedida, feita gradualmente 'de lembrança em lembrança', de lágrimas e risos sucessivos até conseguimos fazer as pazes com o mundo.

Obrigada Paula Varandas, pela partilha deste texto no teu FB.

Tínhamos razão, Paulo…

Ontem acabou por ser um dia muito estranho.

Ter uma pessoa no meu sofá a contar as últimas novidades da sua vida, os seus problemas, angustias, inquietações… e, enquanto tentava animar a pessoa, mostrar-lhe outros ângulos para os seus medos, lá no fundo da minha cabeça, só consegui pensam:

‘Tínhamos razão, Paulo… está tudo a acontecer como sempre soubemos que ia acontecer!’

 

Não sei o que me deixou mais triste…

Saber que tínhamos razão ou não estares cá para ver.

Ontem teria sido um daqueles serões em que ficaríamos os dois na nossa varanda, eu enrolada num cobertor e tu naquele teu casaco/robe horroroso, a conversar até eu já não me aguentar de sono…

Bem vistas as coisas, afinal não foi tristeza o que senti… foi saudade.

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