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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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Os miúdos e os refeitórios

Sobrinha Mai’linda começou ontem a frequentar um ATL de verão. Lá lhe explicámos que é melhor para ela estar duas semanas com atividades no meio da mata com outros meninos da mesma idade, do que ficar em casa dos avós, todo o dia agarrada ao telemóvel e à televisão. Ela aceitou bem… mas fez a pergunta sacramental nestas ocasiões: ‘A avó faz a minha marmita, não faz mãe?’

A minha sobrinha fez 10 anos e a nossa luta continua. Não conseguimos convencê-la a comer na escola. Chora como se o mundo fosse acabar. Agarra-se à mãe e à avó, 'não me faças isso, por favor...'. Nós sabemos que metade da fita é só mimo, mas a outra metade tem raízes tão fundas que é difícil exterminar o medo.

A minha sobrinha foi sempre muito difícil para comer: primeiro enjoou o leite, depois enjoou as papas, depois enjoou as sopas (por muita volta e imaginação que se tenha, uma sopa é uma sopa), depois veio a comida de tacho, melhorou um bocadinho, mas introduzir qualquer alimento novo era um stress (‘num góta moango!’, ‘oh filha, não tem morango’ e ela a ver a papa de fruta… cor-de-rosa…). Além disto tudo, foi sempre de vómito fácil. Uma insistência da mãe ou da avó, para comer mais uma colher, ou uma coisinha qualquer menos bem passada na sopa… abria a boca e saía a refeição TODA! Resumindo, a hora da refeição era um ‘Deus nos acuda’!

A primeira vez que foi para a escola tinha quase 3 anos. A minha irmã lá explicou que a miúda era difícil para comer, que era preciso paciência e dar-lhe tempo.

Pois bem, quase todos os dias a minha sobrinha vomitava a sopa na escola. Até hoje, tantos anos depois, a minha sobrinha fala numa tal Mónica com horror (‘se encontrar a Mónica na rua, cuspo-lhe em cima!’).

Nem de propósito este domingo o Melga almoçou connosco. Em cima da mesa estava uma saladeira com salada de tomate: ‘queres salada, Melga?’, ‘Eh pá, tomate… isso é que não!’, ‘Nunca consegui fazer as pazes com o tomate… desde os tempos daquelas estupidas do ATL!’. O Melga foi sempre ‘uma boquinha santa’. Traçava tudo o que lhe pusessem à frente. Comia salada com alface, cebola, pepino, pimento… mas não gostava de tomate. No ATL onde andava se não comesse o tomate ao almoço, há hora do lanche tinha um pratinho com o mesmo tomate à frente e só podia lanchar se comesse o tomate. O Melga tem hoje 23 anos e pela primeira vez, no domingo, tomou a iniciativa de comer um bocadinho de tomate, sem pele, sem grainhas, e confessou: ‘não é mau, mas olha que tive que me controlar para não cuspir, lembrei-me logo do ATL’.

...

Em toda a vida escolar da minha sobrinha (dois anos de pré, mais quatro anos de primária) nunca mais conseguimos que comesse no refeitório da escola. Já percebemos que o medo não é tanto da qualidade da comida… o medo é que a obriguem a comer o que não gosta, é ser alvo da chacota dos outros meninos, se a obrigarem e acabar por vomitar.

Eu entendo que numa escola, não haja ‘tempo’. Mas não entendo que os pais paguem para ter os filhos aterrorizados na hora da refeição. Não entendo que uma cantina escolar tenha que funcionar quase como um exército. Bem vistas as coisas, a cantina acaba por ser um prolongamento da sala de aula, onde todos têm que andar ao mesmo ritmo. Os miúdos não são todos iguais. Tem que haver espaço para essa diferença. Na minha cabeça, não compete à escola, aos professores e auxiliares ensinar os miúdos a comer. Isso é função dos pais, em casa.

Eu entendo que às vezes é preciso forçar um bocadinho para fazer os miúdos comer, mas agarrar numa criança com 3 anos, levá-la à cozinha, mostrar-lhe um panelão de sopa e dizer ‘podes vomitar as vezes que quiseres, tenho aqui muita sopa para pôr no teu prato…’, para mim, é só maldade! Uma maldade que deixou marcas tão profundas na cabeça de uma criança que mais de seis anos passados ainda a impede de gozar da escola na sua plenitude.

sopa.jpg

Não sou pessoa que deseja mal aos outros, mas a essa tal Mónica, a única coisa que lhe desejo é que tenha dois ou três filhos, muito saudáveis, mas que sejam todos como a minha sobrinha. Que passe uns anos valentes a levantar-se todos os dias da mesa, vomitada por um dos filhos…

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