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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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O meu avô Emílio

Avo_Emilio.jpg

Esta fotografia foi tirada no dia do meu batizado. Estávamos em 1973.

Eu sou a bebé morena. A loira é a minha prima Sofia (já vos falei dela aqui) e o senhor, com ar muito vaidoso, é o meu avô Emílio.

Nesta altura, já tinha cinco netos, os meus primos José, Fátima e António, que viviam perto dele, lá na terra, e nós duas em Lisboa. Ainda teve mais 7 netos: Isabel, Margarida, Patrícia, Mafalda, Liliana, João e Joana. Por esta ordem. Como podem calcular, quando nasceu o meu primo João, foi quase como se tivesse nascido um allien, ‘ai uma pila! Finalmente uma pila!’ (o João é o garnisé de estimação do nosso galinheiro).

O meu avô Emílio teve cinco filhas, sempre na esperança de ter um filho. Tenho a ideia que este meu avô foi um pai carinhoso. Nunca ouvi a minha mãe ou as minhas tias falarem em tareias ou sequer palmadas (acredito que as tenha havido), e não deve ter sido só por serem todas meninas, que o diga o meu primo Zé, rapaz muito dado a tropelias, que fugia das tareias do pai escondendo-se debaixo da asa do avô Emílio.

Foi o meu primeiro avô a morrer, em 1992. Víamo-nos duas ou três vezes por ano, mas mesmo assim tenho boas recordações deste meu avô.

Tinha uns olhos azuis muito bonitos, um olhar de malandro e um sorriso fácil. Não sei porquê, mas acho que deve ter sido o engatatão lá do sítio. O que mais gostava era de ter a família toda sentada à mesa lá de casa. Via-se que ficava feliz quando os netos estavam todos juntos.

Lembro-me das ensaboadelas que a minha mãe e as minhas tias nos davam, quando íamos à terra: ‘o vosso avô não tem dinheiro para gastar em guloseimas! Se ele vos oferecer, vocês dizem que não querem!’ e depois andávamos nós pelos caminhos da aldeia a evitar ao máximo passar em frente da taberna café do Sr. Pinho, porque sabíamos podia lá estar e nos ia oferecer chocolates ou caramelos e se disséssemos não ele ficava chateado (já para não dizer que era muito difícil dizer não a um chocolate), mas se disséssemos sim as nossas mães moíam-nos o juízo… (eram tempos de decisões difíceis…)

O meu avô Emílio era exímio na arte dos enxertos. Não havia árvore de fruto que não enxertasse. Era giríssimo chegar ao Passal (o pedaço de terra que era a menina dos seus olhos) e ver macieiras a dar maças de duas variedades ou pés de videira que davam uvas brancas para um lado e uvas pretas para o outro. Lembro-me de o ter visto a enxertar uma planta que a minha mãe tinha num vaso na varanda. Era notório o cuidado com que o fazia, com atenção ‘para não estragar’.

A última recordação que tenho do meu avô Emílio vai acompanhar-me para sempre. Estávamos todos na terra, para o fim-de-semana da Páscoa. Por norma, nessa altura do ano, andam todos muito ocupados a semear as batatas, mas o meu avô Emílio, já muito consumido pela doença, não tinha força para semear as suas batatas e não falava noutra coisa. As filhas e os genros juntaram-se e foram para o Passal semear as batatas do meu avô.

Vi o meu avô Emílio, que já não conseguia curvar-se com uma enxada na mão, a gatinhar no meio da terra para semear as suas batatas. Punha uma batata, um pouco de adubo e tapava tudo com as duas mãos, gatinhava um pouco para o lado e repetia o processo… tudo com o mesmo cuidado e atenção, ‘para não estragar’

Sempre que oiço a expressão ‘o amor do agricultor pela terra’ lembro-me do meu avô Emílio a gatinhar no Passal para semear as suas batatas.

Foram as últimas que semeou.

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