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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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Chegar à beira do precipício

Não consigo compreender as pessoas demasiado racionais (e, por isso, muito frias) nem as pessoas demasiado emocionais (que, por isso, não conseguem ter reações ponderadas ao que as rodeia). Sempre me considerei uma pessoa racional que, de vez em quando, deixa vir o emocional ao de cima. Acho que sou igual à maioria.

Lembro-me de estar no velório do Paulo, olhar para a urna e falar mentalmente com ele: ‘não te preocupes, eu vou ser forte, eu vou conseguir ultrapassar isto’. Fiz-lhe tantas promessas, disse-lhe tantas vezes isto. Poucos dias depois do funeral fui falar com a minha médica de família. Havia papelada do seguro de vida que era preciso começar a preencher. A médica agarrou nos papéis, colocou-os de lado e olhou para mim: ‘E você, como é que está?’

‘Eu estou bem Dra. Não quero comprimidos, o Paulo não ia gostar que eu ficasse agarrada a comprimidos. Estou um bocadinho perdida, as noites são o mais difícil, mas vou encontrar uma maneira de seguir em frente.’

Sai do consultório com umas ampolas para tomar de manhã e uma caixa de comprimidos para dormir. Fui trabalhar a 29 de setembro de 2014, uma semana e meia depois do funeral. Quanto mais depressa retomarmos a vida normal, melhor, não é?

Comecei por fazer de conta que o Paulo estava em viagem de trabalho e voltava daí a dois dias. Mas o dia-a-dia encarrega-se de ir minando as certezas com pequeninas coisas.

A primeira vez que entrei num supermercado e dou comigo a olhar para as prateleiras sem saber o que comprar, porque simplesmente não sabia do que é que EU gostava. Não sabia fazer compras para MIM, só para NÓS. Ou o dia em que ouvi uma conversa entre familiares sobre coisas triviais e percebo que, apesar de todos sentirem a falta do Paulo, a vida continua mesmo, volta-se às rotinas que se tinha antes do Paulo partir, mas isso é só para os outros, não para mim, porque eu deixei de ter rotinas. E dói. Finalmente chega o dia em que a vida se encarrega de nos mostrar que não é possível viver a ‘fazer de conta’ e dá-nos um choque de realidade.

O meu choque de realidade chegou sob a forma de uma árvore de natal enorme, toda iluminada, em plena Praça do Comércio, no dia 28 de novembro de 2014. Só me lembro de pensar ‘É NATAL E O PAULO NÃO ESTÁ CÁ’. Foi como vir à superfície do mar e respirar pela primeira vez em dois meses.

Nunca mais consegui ser minimamente racional, o emocional tomou conta de mim de uma forma avassaladora. Por razões profissionais comprometi-me a continuar ao serviço mais 2 semanas. Foram as piores duas semanas de que me lembro. Perdi a conta ao número de vezes que me fechei na casa de banho, num choro descontrolado.

Voltei à médica a 15 de dezembro e não precisei dizer nada. Ela olhou para mim e disse ‘eu deixo-a ficar em casa, mas vai ter que fazer o que eu mandar.’

‘Eu faço tudo o que a Dra. quiser. Só não quero continuar a sentir-me assim’.

Este último ano e meio foi, acima de tudo, um tempo de aprendizagem. Aprendi a conhecer-me e a ter um respeito enorme pela saúde mental. Eu sei que estive à beira do precipício, e tive medo, tive muito medo.

Ajudou ter pessoas há minha volta que gostam de mim e souberam dar-me a mão ou um ombro; ajudou ter uns comprimidos que mantiveram a minha cabeça mais clara e serena, mas isso é só uma ajuda, não resolve nada. Voltar a ser racional, e controlar o emocional, só depende de nós e não de comprimidos.

Gostava apenas de deixar uma mensagem a quem esteja a ler isto e esteja a passar por algo semelhante ou conheça alguém que esteja na mesma condição: há duas frases que me têm acompanhando desde a partida do Paulo, uma disse-me uma enfermeira, naquela madrugada no hospital, ‘não pense em si, pense nele’, a outra estava na pagela do Paulo e é de Sto. Agostinho, ‘se me amas, não chores’.

Porque penso nele e sei que não gostava de me ver triste e porque o amo, choro só um bocadinho de cada vez...

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