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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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Ainda a eutanásia

Eu sei que o assunto já está um bocadinho ultrapassado. Já todos falaram sobre isto e já passaram à frente, mas eu sou um bocadinho mais lenta… gosto de ler sobre os assuntos, gosto de pensar (encucar, como dizia o meu Paulo) e tirar as minhas conclusões.

Se sou a favor da eutanásia?

Numa primeira leitura… SIM, claro que sim.

Mas depois começo a ler depoimentos de médicos, de pais e começam as dúvidas, porque o problema não são os casos lineares, os que preenchem todos os requisitos, o problema são as fronteiras…

Há muitos anos (não sei se já andava na universidade), vi um documentário na televisão sobre a prática da eutanásia na Holanda. Apresentava o caso de um homem com um diagnostico de esclerose lateral amiotrófica (a doença do balde água gelada). Já estava numa cadeira de rodas, já quase não falava, precisava de ajuda para tudo (desde a higiene até deitar, comer, etc…) e a perspetiva era morrer engasgado, porque os músculos atrofiariam de tal maneira que perderia o reflexo da deglutição e da tosse.

Pediu a eutanásia. Filmaram o processo todo. Decidiu o dia e a hora. Na sua sala, em sua casa, estavam a mulher e o médico. Beberam um cálide de vinho do Porto. O homem pousa o seu copo, olhou para o médico e disse: ‘vamos!’

Deitaram-no numa cama, despediu-se da mulher…. Lembro-me de desligar a televisão e sentir-me arrasada, mas ao mesmo tempo… a coragem daquele ‘vamos!’. Foram as imagens mais violentas que vi até hoje (só ultrapassada pela visão da morte súbita do meu Paulo).

Estes são os casos simples. Os casos que não levantam qualquer dúvida: maior de 18 anos, lúcido, doença terminal, sem perspetiva de tratamento, morte certa, sofrimento… para estes casos eu não tenho dúvidas: Sim à Eutanásia!

Eu sei que os cuidados paliativos resolvem muita coisa, mas não resolvem tudo. Tenho uma prima, mais nova do que eu uns 10 ou 12 anos, é enfermeira, especializada em cuidados paliativos. Já lhe ouvi frases como ‘já não sei o que dizer mais ao marido da doente…o homem parece um fantasma pelos corredores’, ‘há doentes que fazem agonias muito prolongadas’, ‘dois doentes com o mesmo quadro clínico, um pode morrer em horas e o outro pode durar mais dois dias’.

As pessoas têm o direito de não querer cuidados paliativos. As pessoas devem ter o direito de dizer ‘não quero esperar 15 dias para morrer’, ‘não quero deixar a minha família nesta espera!

Também já ouvi essa minha prima (que tem pouco mais de 30 anos) dizer: ‘os doentes que tenho a meu cargo… são TODOS mais novos do que eu’. A eutanásia não é uma questão de ‘velhinhos’. Mas são os velhinhos os mais vulneráveis. Os velhinhos que entopem as nossas urgências e que ficam abandonados nos quartos de hospital depois de terem alta. Os filhos que não aparecem para os levar para casa, porque os acham um estorvo, são os mesmos que, na primeira hipótese, vão ver na eutanásia uma saída para os seus problemas

Mas ainda há outras questões que me deixam a pensar:

E se o doente em causa tiver uma deficiência mental? Não terá o mesmo direito a ter uma morte sem sofrimento. No caso de ter a mesma doença do sr. holandês, por não se tratar de pessoa lúcida, teria que esperar que os músculos atrofiassem de tal forma a provocar uma morte por engasgamento?

E se for uma criança? Sim, eu sei que não há nada mais anti-natura do que um pai pedir a morte de um filho, mas não será igualmente anti-natura um pai ver um filho morrer em sofrimento e não lhe poder valer? Quantos pais, perante um desfecho que é certo, não preferem ver um filho morto a vê-lo sofrer?

Onde é que colocamos a fronteira?

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