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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

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Acabadinho de ler!

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Passagem para o Ocidente / Mohsin Hamid     

Uma palavra para definir este livro: esperança.

Este livro é mais um daqueles livros que vai ficar para sempre na minha estante.

Surpreendeu-me porque é uma história de amor. À partida eu fujo de histórias de amor, mas o livro foi finalista do Man Booker Prize 2017, pelo que não podia ser uma simples história de amor, por isso arrisquei… e ainda bem!

Conta-nos a história de Nadia e Saeed. Dois jovens, num país que vai mergulhando no caos. Nunca sabemos de que país se trata, pode ser o Iraque, a Síria, o Afeganistão… só sabemos que se trata de um país muçulmano, porque Nadia, ao longo de toda a história, insiste em manter a sua túnica preta vestida, sempre que está em locais públicos. Dois jovens apaixonados que depois de todos os esforços de adaptação às constantes mutações no seu país, resolvem partir... sem rumo, sem destino…

São refugiados de guerra… migrantes.

O autor optou por não conduzir o leitor por descrições épicas de travessias imensas e dos perigos associados. Já todos nós estamos suficientemente intoxicados pelas imagens na televisão de colunas de pessoas a caminhar sem destino, de barcos cheios de gente em fuga, em condições tão perigosas. Em vez disso, o autor substitui estas travessias por portas mágicas, que, uma vez transpostas, levam estes jovens do seu país para sucessivos campos de refugiados, primeiro em Mykonos, depois em Londres e, finalmente, em S. Francisco.

Li vários textos de análise a este livro. Quase todos falam numa frase que aparece quase no fim ‘todos somos migrantes através do tempo’. Não foi esta a frase que mais me tocou, foi uma outra, na página 86, que me ficou cravada na memória e que me pôs a pensar estes dias:

“… quando migramos, assassinamos das nossas vidas aqueles que deixamos para trás.”

Já se devem ter perguntado, eu já dei comigo a perguntar-me: como é possível as pessoas optarem por migrar? Sair, assim, sem destino? Como é possível colocar filhos em barcos sobrelotados e lançarem-se ao mar? Será que não amam os filhos?

Amam. É porque os amam que o fazem. São pessoas que foram perdendo tudo, num processo de adaptação contínua… a comida começa a escassear, começam a ver amigos, vizinhos simplesmente a desaparecer (morreram, fugiram?), um dia deixam de ter trabalho (e é normal sair do local de trabalho com computadores, impressoras e televisões às costas), o café de todos os dias que fecha as portas, depois deixa de haver água ou luz, passam a cozinhar em fogões de campismo, depois são as janelas de casa que passam a ser um perigo, porque há balas perdidas e desarrumam-se os móveis de forma a tapar as janelas, depois a guerra entra pelo bairro dentro…

São pessoas, para quem o seu país deixou de ter significado… uma identidade… deixa de haver normas, regras, deixam de ter pontos de referência, sejam eles físicos, sociais, culturais… e, por isso, só lhes resta partir. Partem os mais novos, os mais fortes, os que ainda podem lutar por um futuro melhor para os filhos… ficam os velhos, os doentes, os feridos. Partem com a certeza de não mais ver os que ficam! 

O autor não nos entope em análises políticas, religiosas ou económicas… apenas nos fala de esperança. Mostra-nos o ponto de vista do refugiado de guerra, completamente desenraizado, desorientado, sem nada de seu, muitas vezes sem conseguir comunicar, que aprendeu a temer a autoridade (pelas coisas que viu no seu país) e que apenas pede para ser aceite em cada novo sítio onde chega, numa esperança inabalável de conseguir uma vida melhor.

É a esperança que move estas pessoas na busca por uma vida com trabalho, uma casa, mandar os filhos à escola… mas, sobretudo, e é aqui que estes migrantes são diferentes dos nossos emigrantes... buscam uma vida com paz.

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