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Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

Não sejas engraçadinha!

Como é costume dizer nestas lides "Este é um blog sobre tudo e sobre nada"

Como a vida mudou!

Há dias entrei no FB e dou de caras com este post da Sra. Minha Mãe:

‘Olá! Amigos hoje tive uma memória! Hoje [24 de janeiro] faz 55 anos que deixei a minha aldeia! Tinha 13 anos e vim trabalhar com a minha irmã! Tenho boas e más recordações mas há uma que não vou esquecer! Quando se acenderam as luzes na avenida comecei a chorar e foi aí que percebi que a minha vida ia mudar e mudou!!! Nunca tinha visto tanta luz e ruas tão grandes!! Isto foi em 1962!!’

 

Sempre que vamos à terra e a minha mãe e as irmãs se juntam à volta de uma mesa, a conversa quase sempre termina com as recordações de quando eram miúdas e da vida que tinham na aldeia. Felizmente não são só recordações tristes. Recordam, com saudade, o caldo de feijão e couves que a minha avó fazia na panela de ferro à lareira (ainda provei alguns e também tenho saudades). Contam-nos histórias das brincadeiras, das partidas que faziam uns aos outros, da escola.Há quase sempre gargalhadas.

Mas também nos contam as histórias da miséria que era a vida na aldeia, nas décadas de 50 e 60.

Tempos em que se usava uma saca de sarapilheira na cabeça a fazer de chapéu-de-chuva. Tempos em que se ia para escola descalço ou de tamancos e só se tinha um xaile para tapar o frio de janeiro. Tempos em que a professora comia uma banana no recreio da escola e os miúdos corriam para apanhar a casca, para tentarem perceber ao que sabia uma banana. Tempos em que os miúdos adormeciam no chão à espera do jantar, porque primeiro tratava-se das terras e depois dos animais e só depois dos filhos. Tempos em que as casas não tinham casa de banho ou luz elétrica.

Felizmente os meus avós tinham terras, que trabalhavam de sol a sol. Nunca houve fome. Havia sempre tudo o que a terra dava. Preocupavam-se em dar o melhor possível às 5 filhas. Quando chegaram à aldeia, a luz elétrica ou as loiças sanitárias, o meu avô foi dos primeiros a equipar a casa com essas comodidades. Quando uma das filhas ficava doente, o meu avô ia à loja e comprava um quarto de queijo ou um pouco de marmelada, para que a filha doente se pudesse alimentar um pouco melhor.

Quando a minha mãe fez o exame da 4ª classe, o meu avô quis dar-lhe uma prenda. Deu-lhe a escolher entre ’um foguete ou pão de trigo com marmelada’. Sim, leram bem! Numa terra onde todos semeavam o milho e faziam broa em casa, o pão de trigo era um luxo a que muito raramente se tinha acesso. A minha mãe deliciou-se com o seu pão de trigo com marmelada.

Foi esta a vida que a minha mãe teve a oportunidade de deixar para trás, há 55 anos.

Saiu da sua aldeia pequena, fria, escura, mas que era tudo o que conhecia, pela mão do meu avô, embrulhada num xaile da minha avó, e aterrou em plena Av. Estados Unidos da América, em Lisboa. São as luzes dessa avenida a que se refere.

Tenho para mim, que deve ter sido o equivalente a qualquer um de nós aterrar hoje, numa qualquer civilização marciana…

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